5 de julho de 2007

Personagem: Júlio Mariano

Júlio Mariano, nascido em uma fazenda no município de Itatiba em 1901, mudou-se para Campinas ainda na infância. Para ajudar a família, trabalhou como auxiliar de farmácia e em armazéns de secos e molhados enquanto concluía os estudos primários nos colégios Externato São João e Corrêa de Mello.
Júlio Mariano quando jovem.

Mariano considerava-se autodidata, apesar de ter aprendido francês e música nas escolas, uma vez que dizia ter adquirido a maior parte de seus conhecimentos fora do ambiente escolar. Após abandonar o estudo formal, ingressou na tipografia da Casa Genoud, trabalhando por quase quinze anos.

Na Casa Genoud, Mariano também teve a oportunidade de imprimir, junto com alguns amigos, o jornaleco O Cometa. De periodicidade indefinida; o Cometa tratava principalmente de aspectos da vida social dos jovens da cidade, sendo notórias suas seções de cartas contendo declarações de amor, além de falar um pouco de esportes, muito embora em sua página inicial sempre viessem estampados contos e crônicas dos mais variados assuntos, que, de acordo com Mariano, sempre passavam pelo crivo dos operários mais antigos. A tipografia da Casa Genoud também foi responsável pela publicação de seu primeiro livro, Nebulosas, reunião de “poemetos em prosa”, feito em 1930.

Seu ingresso na grande imprensa da cidade viria em 1925. Buscando uma brecha que lhe possibilitasse a publicação de textos. Mariano ofereceu à diretoria da Gazeta de Campinas seus serviços como repórter esportivo, função até então inexistente na imprensa local. Trabalhou gratuitamente por alguns anos, conciliando a função de tipógrafo com as lides de repórter. Anos depois, daria também um primeiro impulso à seção policial do Correio Popular, com a coluna “No cadastro da polícia e nas ruas”.
Neste jornal, Mariano passou por uma situação no mínimo inusitada. Durante os acontecimentos de 1932, trabalhou praticamente sozinho na redação, uma vez que muitos diretores e redatores da folha abandonaram a cidade. Por alguns dias, Mariano colocou o periódico nas ruas com poucas páginas e matérias que passavam pelo crivo dos sensores: foi o “homem que fez um jornal sozinho”.

Sua longa experiência na tipografia, aliada aos mais de cinqüenta anos de redações, e uma rápida passagem pelas rádios, apresentando um jornal de notícias durante os anos de 1942 a 1946, fizeram de “Mariano, o velho” (como ficou conhecido após a entrada de seu filho na imprensa) uma das principais referências da imprensa de Campinas. Era tido também como um dos grandes intelectuais da cidade.

Ávido leitor, sempre interessado em história, folclore, poesia e nos grandes clássicos da literatura mundial. Mariano, ao que se sabe, nunca reconheceu publicamente sua herança negra e de fato era algo que ficava apenas subentendido e não é a toa que Paranhos de Siqueira comparasse o colega a Machado de Assis, não somente graças “à prosa fácil e ao tom combativo porém sempre bem-humorado de suas crônicas”, mas também ao dizer que: “Tal como Machado de Assis, ele começou como tipógrafo tipos a dedos, sob a luz mortiça de um pendente imóvel. Era já o discípulo de Gutemberg que ia dispondo os caracteres tipográficos no componedor e, ao mesmo tempo, acompanhando o pensamento do autor, na ânsia que tinha de assimilá-lo, no desejo vocacional de aprendê-lo.”

Elogios subliminares a parte, Mariano, no entanto, definia-se tão somente como um “proletário das letras”, pois acreditava que: “(...) é essa a expressão que melhor define minha vida profissional (...) em que muito hei escrito e obrigatoriamente para outros autores, e um pouquinho só para mim, desde certo dia de abril de 1932 em que, ingressando no Correio Popular, inciei minha carreira no jornalismo.”

Dizia ter escrito muitos trabalhos sob encomenda: monografias, teses, discursos, artigos de propaganda política, crônicas e outros trabalhos, pelos quais nem sempre havia sido bem pago. Mariano se referia, em grande parte, à sua passagem pelo jornal A Defesa, órgão do Partido Constitucionalista e também por seus esforços na campanha a prefeito de Ruy Hellmeister Novaes em 1955.

Na década de 1950, Júlio Mariano ingressou, como funcionário público, na Câmara Municipal de Campinas. Lá, além de exercer o cargo de redator administrativo, ficou conhecido como o “salvador de documentos”, tendo em vista sua extrema preocupação em recuperar, organizar e preservar antigas atas e requerimentos destinados à destruição.

Partindo principalmente destes arquivos, Mariano elaborou dois de seus livros a respeito da história de Campinas: Campinas de ontem e de anteontem (Editora Maranata), em 1970, e Badulaques, impresso pelo Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas de São Paulo, em 1979, além de organizar, junto com o professor Carlos Francisco de Paula, em 1952 a coletânea Monografia Histórica de Campinas, onde, além de escrever seis artigos (“História da imprensa em Campinas - resumo)”, “A diocese de Campinas”, “O ensino em Campinas na atualidade”, “Grandes estabelecimentos hospitalares de Campinas” e “Crônica da iluminação em Campinas” e “Condução e transportes”), também foi revisor.
Júlio Mariano pintado em bico de pena e que ilustram seus livros.

Mas sua ligação à história da cidade vinha desde a década de 1930, quando elaborou duas palestras, Do bondinho da tracção ao elétrico da Carril, sobre a troca, em Campinas, dos bondes a cavalo pelos elétricos e também o curioso ensaio As boas qualidades do sr. Dom Diabo – autos de um inquérito litero-demonológico, no qual fala sobre a experiência do demônio na vida moderna.

Posteriormente, interessou-se pelos eventos ligados à imprensa de Campinas e fez o livreto História da Imprensa em Campinas, que, quatro décadas depois, foi editado como livro com patrocínio da Associação Campineira de Letras. Os artigos “Um crime de escravos”, “Drama mambembe de cortiço” e “O enterro de Figênia” (os dois últimos ligados ao folclore local), impressos diversas vezes em revistas e jornais, completam a coleção de trabalhos publicados.
Seu autógrafo retirado de um de seus livro.

Nos jornais, Mariano escreveu, até pouco antes de sua morte, em 1988, mais de uma dezena de colunas a respeito da história da cidade. As mais famosas foram “De Campinas de 1800 e tantos”, “Campinas de ontem” e “No giro do tempo”, onde diariamente republicava notícias do Correio Popular.

Já quando idoso.

Júlio Mariano foi homenageado pela municipalidade, sendo seu nome dado à biblioteca da Câmara Municipal.


Nota: Trechos e fotos desta matéria foram extraídos da dissertação de mestrado de Flávio Carnielli, chamada "Gazeteiros e bairristas: histórias, memórias e trajetórias de três memorialistas urbanos de Campinas", defendida no ano de 2007 no curso de História da UNICAMP.

5 comentários:

roctaviani disse...

Agradeço ao autor pela publicação desse texto que, embora breve, impede que se apague da história campineira a vida de meu avô e facilita seu acesso pelas novas gerações.

Abraços

Renata Octaviani Martins

J.M.Fantinatti disse...

Renata, Eu, como memorialista, tenho em seu avô um exemplo a seguir neste saga de procurar manter viva a memória da história de Campinas. Seu avô foi, sem dúvida, um dos grandes memorialista que Campinas teve e espero um dia poder fazer uma homenagem maior à sua memória. O objetivo deste blog é somente início de algo maior. Enquanto isto não acontece; vamos seguindo no blog.

ione disse...

Sr. Fantinatti, trabalho na Biblioteca Nacional e achei muito interessante tudo que vi em seu blog. Faço um trabalho sobre Periodicos literários e tenho a revista Andorinha publicada em Campinas em 1929. Nela vi que tinha a colaboração de Julio Mariano como cronista de arte. Esta informação lhe é útil? Não vi menção a referida revista. Procuro informações sobre o autor.

ione disse...

Sr. Fantinatti, trabalho na Biblioteca Nacional e estou atualmente fazendo pesquisa sobre a revista "Andorinha" publicada em Campinas em 1929. Nela encontro a informação que Julio Mariano colaborou como cronista de arte. Não encontrei nenhuma informação sobre a referida revista em seu blog.

J.M.Fantinatti disse...

Realmente Sra. Ione eu não nada sobre a revista em meus alfarrábios. Sinto e abraços.